quarta-feira, janeiro 16, 2008

O Homem que caminhava

Ele andava, a tarde quente fazia com que gotículas de suor brotassem em sua testa e nos pequenos pêlos do bigode por fazer há poucos dias. O calor não atrapalhava os passos, o imergia em pensamentos íntimos, que eram frequentemente esbravejados violentamente no escuro silencioso de algum canto da sua cabeça, vezes conturbada.
A rotina era cansativa, ele não gostava de lavar meias, seus sapatos não eram dos melhores ou mais novos, não por falta de tempo ou recursos. Simplesmente comprar sapatos o obrigava a ouvir sempre a odiável e decorada resma de papo de vendedor.
Chuva. Fina, leve, se avelocidando gradativamente, bem devagar.
Suas meias eram novas, mas tudo bem, ele não se importava. Não havia outro lugar a ir ou compromisso a cumprir depois de ter seu trabalho feito.
O volume de seus cabelos ia lentamente diminuindo, de acordo com o peso das sutis gotas de água dos céus em suas telhas.
Pesou a força da água, sua meia provavelmente ficaria ensopada depois de meia dúzia de minutos e isso irritaria seus pés. Mas ele não tinha mais o que fazer depois do seu trabalho.
Hoje – pensou – vai ser rápido, limpo e eficaz. Ninguém precisa ver. Afinal, quem não consegue dar conta de apenas uma senhora? E o que teria ela de importante? Simplesmente não via motivo real para isso. Mas foram ordens superiores: “Vá e faça seu trabalho.”
O formoso rapaz de cabelos castanhos, agora negros pela água, colados na testa continuava a ininterrupta marcha pelas ruas vazias de pedestres. Desde que não os lessem a mente, tudo bem. Nada macularia aquele isolamento. Exceto pela grossa trama de algodão molhado da sua calça jeans que teimava em incomodar seu passo.
Ao menos não ventava nessa parte da cidade. Com certeza esfriaria.
Dobrando uma esquina ou duas já era possível ver seu alvo, cumpriria sua função, pela porta da frente, como sempre. Alguns papéis de sua maleta já estavam certamente umedecendo pelas pontas e borrando algumas folhas impressas a jato. Talvez pequenos buracos e rachaduras nas dobras do couro negro deixassem alguma água entrar, quando não algo pior. Pelo mesmo motivo dos sapatos, aliás, pela sua procedência comum, ambos tinham a mesma idade e carga de uso.
No fundo do recipiente couriáceo pousado entre os braços, pôde sentir o volume e algum peso do – útil, mas não tão frequentemente usado – instrumento metálico laqueado que no passado usara muito. Fora fundamental. Mas já descobrira coisas mais limpas, leves e práticas, por vezes, mais eficientes.
Em breve. Ah, muito em breve! Acabaria com aquela maçante missão e voltaria para casa. Era a última do dia, de toda a semana.
Três dias depois seria a mesma coisa de novo. Mas teria algum tempo de espairecimento efetivo em qualquer canto que ninguém fizesse o desfavor de fitá-lo por mais de dois segundos.
Queria parar com aquilo. Mas tinha muita coisa envolvida, mais coisa do que cabia somente a ele.
Chega de pensar. Aí está a porta.
Ele toca a campainha uma, duas vezes. E lá está ela:

__ Boa tarde, Senhora Costanzo?
16/01/08
18:55